terça-feira, 17 de agosto de 2010


Eu prefiro plantar flores.
O chão? Muito duro, seco, sem vida, cinza pálido.
Mas basta apenas a repetição de atos simples como lançar água, adubar e plantar que a Existência toma cor, toma dinâmica em suas reações bioquímicas.
É por isso que prefiro plantar flores.
Porque minhas forças já se findam, minhas esperanças desvanecem e minhas angústias se enraízam nas noites.
Quanta terra já adubei (e não com esterco próprio)!
Quanta água esse chão já tomou!
Quantas vezes já vi um jardim nesse lugar inóspito?
Por que, chão miserável, tu não deixas essas folhas se fortalecerem, esses botões desabrocharem?
Por que tu resiste à minha persistência em querer-te transformar em um belo lugar?
Tomara que as formigas te escavem e te transformem em um berçário pras suas colônias ou em deserto!
Tomara que algum de minha espécie fraca te faça alicerce de um manicômio!
Tu preferes esse ermo do que minhas sementes.
Tu queres mais o abandono do que minha dedicação.
Mas mesmo assim, prefiro a ti do que meus dias...
Tu não me agrides em atos estúpidos, mas por outro lado, tu te emudeces e me deixas preso ao teu silêncio e à minha fé, que se torna tênue linha entre o crer e o desespero. Mas tua mudez não dói tanto como minhas frustrações cotidianas...
Apesar de tua pouca atenção, teu pouco caso, sinto-me feliz em regar-te e crer que um dia minhas sementes serão germinadas e de ti florescerão galhos e flores com aromas que me trarão abelhas barulhentas e pássaros simples e assustados.
Tu me enches de felicidade. Mesmo estando consciente de que não terei o olhar e decisão de quem preciso. Ganhar alguns instantes cuidando de ti, vale muito...
O que adianta eu te cutucar, esburacar e mexer com tua formação? 
Sei que nada... O pior é que sei! Mas a ilusão de inspirar teus perfumes me faz continuar...
Apenas ilusão. Viverei ludibriado por ti?
Se me deres flores, sim.